O que Landell afirmou que causou espanto e o descrédito de Roquette Pinto?*
Luiz Netto - 14/07/2007
 

No livro de Ernani Fornari “O Incrível padre Landell de Moura – O Brasileiro precursor das Telecomunicações” , Editora do Exército, Segunda Edição, nas páginas 75 a 80, sob o título: “ Dois episódios de uma mesma luta, Ernani Fornari descreve o diálogo que teve com Roquette Pinto, falando dos inventos de Landell de Moura e quiçá dado o grande prestígio que este gozava, obter dele uma palavra de aprovação para com os inventos do cientista relacionados ao rádio e promover seu reconhecimento que àquela altura (1939) era a meta de Fornari, visto que o cientista se voltara total e exclusivamente para exercer sua atividade como sacerdote.

Como veremos, isto não aconteceu porque como explicarei mais adiante, Roquette Pinto não entendeu o funcionamento do Telefone Sem Fio de Landell, quando o cientista afirmara que seu Telefone Sem Fio dispensava o uso do Selênio,  e ao cabo explicaremos o porque este aparelho poderia funcionar para comunicação a distâncias curtas sem o uso deste dispositivo. Mas vamos a uma parte do relato de Fornari:

“....Em meados de 1939, levando conosco as três patentes, procuramos o nosso querido e saudoso amigo Prof. Roquette Pinto, sem dúvida um dos maiores sábios brasileiros de nosso tempo, e, depois de falar-lhe longamente sobre a vida atribulada e as avançadas teorias e realizações do Padre Landell de Moura, lemos-lhe, entusiasmados, um resumo da primeira parte deste nosso trabalho – leitura que ele ouviu atentamente, sem interromper-nos uma só vez. Finda a leitura, trunfantes, apresentamos-lhe as patentes até aquele momento conservadas em nossa pasta de couro, para armar ao efeito: - E aqui, Prof. Roquette, estão as patentes que provam tudo quanto acabo de ler-lhe.

Roquete Pinto sem se deixar impressionar pelo noss0 coup de théatre , sorriu mansamente e respondeu-nos, sem segurá-las: - Não é necessário, meu caro Fornari. Pode guardá-las. Pela leitura que me fez, já estou bem a par do assunto.

- Mas, Prof. Roquette – insistimos – devo confessar-lhe que tenho receio de não haver exposto com bastante clareza, propriedade, e exatidão científica as idéias e sistemas do padre, e eu gostaria eu o senhor verificasse, ao menos, se a tradução das Patentes está fiel ao texto inglês. Como já lhe declarei, não fui eu quem as traduziu, pois pouco ou nada sei desse idioma. Além do mais, eu desejaria sua opinião escrita a respeito; ela poderia até servir-me de prefácio ao livro, se o senhor o consentisse.

Roquette Pinto olhou-nos demoradamente, como se se sentisse penalizado com a desilusão que ia dar-nos, e falou, por fim:

“Bem, poeta, já que insiste em ter minha opinião, vou usar de toda a franqueza: Não perca mais tempo com esse padre. Depois da afirmação que ele fez sobre a possível dispensa do selênio em tais transmissões sem fio, minha opinião é de que se trata realmente de um louco;!

E mudou de assunto..........".

Como entender o que Landell quis expressar dizendo que seu aparelho Telefone Sem Fio poderia dispensar o uso do selênio para curtas distâncias?

Hoje em dia é do conhecimento corrente que as antenas parabólicas apontadas para o céu, colhem os sinais eletromagnéticos provenientes dos satélites e que trazem as informações de vídeo e áudio para dentro de nossos televisores e que são vistos por todos nós. Mas uma superfície parabólica como estas que são vistas nos telhados das residências também podem ser utilizadas para demonstração que podem refletir ondas sonoras que podem ser detectadas a alguns metros como mostrarei um pouco mais adiante. Por ora, como entender o que Landell afirmou, dizendo que dispensava o selênio? Claro que que sim, que poderia dispensá-lo para curtas distâncias. Trata-se de um fenômeno puramente acústico. Simplesmente ele fez há mais de um século o que hoje é visto e entendido por todos nós porque podemos ver essa demonstração com muita clareza.

Em seu telefone sem fio – , como podem ver no desenho acima, havia uma superfície parabólica espelhada que refletia as ondas sonoras que eram introduzidas através do bocal. Para ajudar a reforçá-las havia um difusor de som que era uma câmara de ressonância. A onda sonora ao ser refletida para a frente encontrava na outra ponta à distância de alguns metros também uma superfície parabólica espelhada que ao colher uma onda sonora redirecionava-a para seu foco. Este sinal sonoro era conduzido através de um duto, como mostrado acima até ao ouvido do ouvinte.

 

Evidentemente a partir de uma certa distância a onda sonora sofria uma atenuação até o ponto de tornar-se inaudível e a partir daí era então necessário utilizar a onda de luz, gerada exatamente no foco das parábolas sendo esta luz modulada pela voz ao passar pela placa de quartzo. Em cada uma das pontas era preciso então contar o dispositivo foto sensível para detecção das variações de luz que eram convertidas por um transdutor eletromagnético em som novamente.

 

Assim, vemos que por uma absoluta falta de entendimento de uma das propriedades do invento de Landell, o grande Roquette Pinto deixou de dar um testemunho que teria tido um peso muito alto para o reconhecimento do valor da obra do cientista. Ao contrário reforçou mais ainda a idéia de Padre maluco, louco...,  e tudo porque? – Porque àquela altura era mesmo difícil compreender até mesmo para mentes tão lúcidas quanto a de Roquette Pinto, algo que só seria efetivamente compreendido muitas décadas depois de sua invenção.

. Estava certo Landell quando afirmou:

“...Tenho, entretanto, a consoladora esperança de que, em curto interstício, minhas obras científicas brilharão como o sol do meio-dia, em virtude da sorte de outros inventores que, mais afortunados do que eu, irão descobrindo os meus próprios inventos, concebidos e executados por minhas próprias mãos no silêncio de minha pobre e reduzida oficina, onde a ciência manda e a experiência executa, antes de os sábios da Europa e da América darem forma tangível, útil, e aplicação pública a obras iguais e similares às minhas. Bem sei que, em coisas de ciência, o que avança em relação à época, não deve esperar justiça dos contemporâneos...."  E foi o que acabou por acontecer!

UMA DEMONSTRAÇÃO DO USO DE SUPERFÍCIES PARABÓLICAS NA
TRANSMISSÃO E RECEPÇÃO DE SOM – ESTAÇÃO CIENCIA – SÃO PAULO
(USP) - Universidade de São Paulo
Este experimento tem a função de demonstrar a propriedade
da superfície parabólica em refletir e redicionar as ondas
sonoras para o seu foco.
 
 
 

Vemos aqui na Estação Ciência –no Bairro da Lapa em São Paulo, duas superfícies parabólicas alinhadas perpendicularmente distantes uma da outra de 43 metros, onde duas pessoas podem conversar - uma falando ao foco da superfície de uma das parabólicas  e a outra colocando o ouvido no foco da outra, e invertendo-se as posições para ouvir e falar estabelecendo-se  um diálogo.
 

 
 
 
Uma explicação do funcionamento das "conchas acústicas" - Superfícies Parabólicas:
" As duas conchas acústicas estão separadas a uma distância de 43 metros. Se você cochichar para um amigo a essa distância ele provávelmente não ouvirá nada. Entretanto, se você cochichar com a boca na posição do foco de uma das duas conchas (a posição do foco corresponde ao centro do anel na concha) e seu amigo estiver com o ouvido no foco da outra concha, ele ouvirá perfeitamente. A conche reflete o som como um espelho parabólico reflete a luz: o som produzdo por você é refletido e converge para o foco, onde está o ouvido do seu amigo."
 
O anel situado no foco da superfície parabólica onde deve se
encostar o ouvido e a boca -  para ouvir e falar respectivamente.
 
 
 
 
Adultos e crianças maravilham-se com o experimento. Observe: As parabólicos estão distantes uma da outra de 43 metros.
 
Uma aplicação prática do uso de superfícies parabólicas
para detecção de sons: Gravação de canto de pássaros:
No foco da superficie é colocado um microfone que recolhe a
a informação de áudio e as envie para um gravador.
 
 
* Edgard Roquette Pinto - (1884-1954) - A Radiofifusão brasileira está associada ao nome do Professor Edgard Roquette Pinto - médico, antropólogo, poeta e professor. Em 1922, por ocasião da comemoração do centenário da independencia do Brasil, houve no Rio de Janeiro uma grande feira internacional que recebeu a visita de empresários americanos que vieram para demonstrar os avanços da Radiodifusão. Foi instalada uma antena  no pico do Morro do Corcovado, onde hoje se encontra a estátua do Cristo Redentor.

A primeira transmissão radiofônica no Brasil foi um discurso do Presidente Epitácio Pessoa, que foi captado em Niterói, Petrópolis, na serra fluminense e em São Paulo, onde foram instalados aparelhos receptores. Roquete Pinto, educador, vislumbrou logo o alcance desse meio e afirmou: "Eis uma máquina importante para educar nosso povo!". Após este evento Roquete Pinto tentou sem sucesso convencer o governo federal a comprar todos os equipamentos apresentados pelos americanos na feira internacional do Rio de Janeiro. Roquette Pinto não desistiu e conseguiu convencer a Academia Brasileira de Letras a fazê-lo. Foram então criada a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, fundada em 1923 e comandada por Roquete Pinto.

Naquele tempo para ser ouvinte era preciso cadastrar-se junto à emissora, adquirindo um equipamento para ouvir a programação. Os aparelhos receptores passaram a ser comprados em 1936 em lojas especializadas. Neste mesmo ano a Sociedade Rádio do Rio de Janeiro foi doada ao Ministério da Educação e Cultura (MEC), cujo titular era Gustavo Capanema. Agora já percebendo o alcance e a força do novo meio, Capanema comunicou que a antiga Rádio Sociedade seria incorporada ao temido DEPARTAMENTO DE IMPRENSA E PROPAGANDA (DIP), órgão responsável pela censura durante o ESTADO NOVO do presidente GETÚLIO VARGAS. Roquette Pinto não só ficou indignado com a proposta e exigiu a autonomia da emissora com o objetivo de preservá-la com sua função essencialmente educativa. Roquette Pinto ganhou a disputa e até hoje a Rádio MEC mantém o mesmo ideário. Roquette Pinto foi também membro da ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS e um dos fundadores do Partido Socialista Brasileiro. Afirmava:" O Rádio é o jornal de quem não sabe ler, é o mestre de quem não pode ir à escola, é o divertimento gratuito do pobre ".

 
 
Retornar à página anterior